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Liberdade e Realização pessoal

Atualizado: 17 de jan. de 2018



Certa vez, falaram-me sobre pessoas que são consideradas espíritos livres. Desde então, tenho o hábito de fazer uma pergunta. Começou como uma simples curiosidade. Depois passei a achar interessante a diversidade de respostas que recebia. Após anos, as reações observadas tinham, para mim, um significado maior do que o conteúdo das respostas. Você já experimentou perguntar a alguém o que entende por liberdade? Você já se fez essa pergunta? Que todo mundo anseia por alguma forma de liberdade não é nenhuma novidade, uma vez que a grande luta de cada uma das milhares de individualidades que nesse mundo habitam é pela garantia do seu espaço. Isso me faz achar estranho que as pessoas, com o passar do tempo, tenham se habituado menos a serem interpeladas pela pergunta, ora achando estranho o questionamento ou ficando confusas, ora demorando algum tempo para responder, nunca sem escolher muito bem as palavras, para falar sobre algo que deveria ser tão natural quanto respirar. Questiono-me se chegamos ao ponto de que a nossa busca por um espaço, onde pudéssemos realizar a nossa individualidade, não acabou por rechear a nossa vida com tantos compromissos que converteu a dita “liberdade” em uma utopia, uma bandeira que, após uma parada ou manifestação popular, vai para dentro de um armário qualquer. E, depois, ainda existem os padronizados ideais de conduta e realização perante a sociedade, que “todos” deveriam alcançar para se sentirem bem sucedidos. Nossos condicionamentos. Temos tantos compromissos que não temos tempo para respirar. Já não respiramos bem. Os condicionamentos nos sufocam. Daí, buscamos fórmulas para superar tudo isso, receitas mágicas e até medicamentos. Pílulas milagrosas que reduzam ansiedade, dores físicas, pânico e depressão. Uma escritora conhecida relata sua longa viagem em busca da realização pessoal. Mas existe um roteiro padrão? Para além da diversidade das respostas recebidas durante a jornada da minha pergunta, as reações e experiências vivenciadas colocam a liberdade proporcionalmente à realização pessoal de cada um, essência e energia vital. Por isso, não existe padrão, fórmula mágica ou roteiro de viagem para alcançar a libertação. Se pensar na minha fórmula pessoal ou ideal de liberdade, diria que é reconhecer o que me faz sentir bem e ter o poder de concretizar esse estado de bem-estar. Assim, antes de ir à Bali, na indonésia, é preciso SENTIR, procurar dentro, junto à nossa essência, o que realmente nos faz bem. Nem sempre isso é fácil. Antes de dizer que alcançou o ideal de realização pessoal de “todas as pessoas” ou “que qualquer pessoa poderia almejar”, pergunte-se se alcançou a “sua realização pessoal”, se está se sentindo bem, se é ali, e não em nenhum outro lugar ou situação, que gostaria de estar. Nesse ponto – o da essência ou realização pessoal -, não existe desconforto, como se estivéssemos interpretando uma peça de teatro narrando a história de outrem. Não há lugar para sensação de vazio, nem ansiedade, ou falta de ar. É o estado de pleno contentamento. Depois de SENTIR, é preciso AGIR, concretizar ou realizar esse estado. Antes de dar a volta ao mundo buscando se libertar, pergunte se precisa realmente trocar de Estado, cidade ou país para que isso ocorra? Recordo a mensagem de um pequeno conto de Saramago: para encontrar-se, às vezes, precisa-se sair de si mesmo. E, para atingir a libertação é preciso realizar a própria essência, seguindo o fluxo do que nos faz sentir bem, buscando estar e fazer o que nos traz bem-estar. Os caminhos da liberdade são diferentes para cada um de nós, e cada um encontrará a sua forma de alcançar. Nem sempre escolhemos da forma certa. A educação, a tradição e até um certo atavismo escolhem por nós…., mas as nossas escolhas definem o tipo de vida que teremos e se, de fato, somos livres. Ouvi outro relato, agora de uma amiga. Ela estava completando seus quarenta anos, estava rodeada pela família – marido e filhos -, levando uma vida simples, e não menos atribulada que a maioria das pessoas. Disse que tinha conquistado, naquele momento, tudo o que esperava da vida. Estava plena e feliz. Reconheci ali um espírito livre. No que me diz respeito, o estado de contentamento e alegria interior é ponto fundamental para que a realização pessoal e liberdade aconteçam na vida de qualquer ser humano. Qualquer tentativa de busca de realização interior, que tenha como objetivo somente o material ou o ilusório, certamente ficará limitada.


Professor Reneu Zonatto

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